Campus de Cornélio Procópio
 
Macho em Extinção (Porto do Destino)
de Rames Kallug

Está mais que provado. Antes, quem pensava nisto, não ousava dizer. Quando dizia, não era levado a sério. O macho, de fato (agora todo mundo sabe), além de não ajudar em nada, atrapalha o processo de perpetuação da espécie. A partir daí, se intensifica e se robustece a ideia de que pode existir uma sociedade matriarcal pura, em que a reprodução se dê por via partenogenética e as filhas (porque haverá somente filhas) seriam somaticamente muito parecidas com a mãe e as irmãs, senão idênticas, e dotadas de quase o mesmo patrimônio genético, senão o mesmo, que o da mãe e de suas irmãs. Para maior garantia de aperfeiçoamento do método, seriam selecionadas eugenicamente para se reduzir os efeitos perversos da, digamos, consanguinidade.

A teoria, demonstrada, é claro, por uma mulher, coloca abaixo dos índices, já críticos, das pesquisas de opinião, todo o machismo planetário, antes tão decantado em verso e prosa. A começar pelos chefões dos grupos erráticos pré-históricos, passando por Abraão e todos os patriarcas da resenha bíblica, até chegar aos Valadões da modernidade, tudo poderia ser diferente se a Dra. Rosemary Redfield não houvesse tardado tanto a aparecer.

Na verdade, há registros fidedignos em Engels (e põe fidedignidade nisso) da existência de sociedades matriarcais em que os "pais" (mas que, de fato só sabiam que eram tios dos filhos da irmã com outros, enquanto ignoravam que seus filhos de fato, eram criados pela mãe e pelos tios maternos deles) exerciam o papel subalterno de meros provedores, de atentos defensores e amáveis tutores da prole de sua irmã, pois a ninguém ocorria que das brincadeiras, pelas quebradas das florestas à tardinha, é que ela conseguia seus nenês, provindos de causas desconhecidas, então.

Mas falava-se de outros grupos, mais evoluídos, de genuíno matriarcado, como o das amazonas gregas, descrito por Heródoto, e cuja rainha Hipólita foi perseguida, assaltada e morta por ninguém menos que o dodecamachão Hércules. De forma semelhante, os

autóctones sul-americanos acreditavam na existência de uma tribo de mulheres guerreiras que viveram na região da atual Amazônia e à qual o próprio Francisco de Orellana dizia haver conhecido, razão porque nomeou de Amazonas o grande rio, em cujas margens, dizia o explorador espanhol, ele e seus comandados teriam sofrido um ataque desfechado pelas selvagens lutadoras.

Deixadas de lado as múltiplas variedades de Barbarelas, dos devaneios ficcionais para consumo da juventude de muita imaginação, na verdade a sociedade das mulheres é uma das poucas certezas para o longo prazo. Como será? Bem, suponho que algumas mulheres especialíssimas e superdotadas serão as matrizes que, por um processo psicossomático resultante da concentração de forças mentais, conjugadas com um extraordinário enlevo físico, conceberão de si mesmas e darão à luz proles sadias de evoluídas fêmeas, sem a intervenção do macho, cientificamente considerado "um dos problemas mais persistentes e frustrantes na biologia da evolução; do ponto de vista científico, seria mais limpo e sensato se as fêmeas cumprissem, sozinhas, a tarefa reprodutiva".

Será o fim do primado masculino? Provavelmente. O fim do machão, sim; do homem, não. Se isto serve de consolo, o certo é que exemplares do espécime masculino serão preservados para a execução de serviços pesados e vis, além de servirem como reserva de sêmen necessário à inseminação indireta de sua própria casta inferior, para produção de mais força de trabalho, como se faz hoje com animais de interesse econômico.

Tratemos nós, os homens atuais, pois, de reformular nossa vida: passemos a considerar com mais respeito nossas esposas e filhas, que podem estar entre as agraciadas pela Natureza, e aproveitemos, com moderação, o tempo que nos resta. Fiquemos todos tranquilos. Não nos exasperemos. Tenhamos calma. Isso tudo pode demorar a acontecer. E, quem sabe não aconteça. Mesmo os cientistas algumas vezes erram...