Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 28 de outubro de 2015
Cartas ao poeta Mário Quintana
Extraído de Porto do Destino

Em maio deste ano, durante o II SELLITCON, Rames Kalluf, ex-professor de nossa Universidade, lançou o livro Porto do Destino – uma coletânea de contos, ensaios e crônicas. A obra, escrita com inteligência, sensibilidade e bom humor, caiu nas graças de nossos leitores, conquistando a marca de 664 downloads até esta data (Estante Digital, 14h00m). Para os que ainda não tiveram a oportunidade de ler esta obra admirável, disponibilizamos um dos textos da antologia, escrito em duas ocasiões distintas, em forma de missivas dirigidas ao poeta Mário Quintana.


Carta de um admirador

Caro poeta Mário Quintana,

Numa destas manhãs, acordei ouvindo a palavra oligopsônio[Economia] Mercado em que há apenas um pequeno número de compradores para os produtos de vários vendedores (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Não foi precisamente um trágico acidente de sonho. Perdoe-me, mas não será isto ainda pior que, de súbito, ver-se frente à também horrorosa abscônditoEscondido (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa), que lhe tirou a calma e fê-lo infeliz? É verdade que uma e outra são usadas, uma por economista desalmado, outra por literato vítima de séria crise biliar. Ao invés de estes cidadãos ficarem dando susto em pessoas que gostam de ler e de dormir, vão eles aprender, com o poeta, que um dos encantos desta e da outra vida consiste em alarmar senhoras gordas. Aliás, penso que, quanto a isto, é necessário exercitar muito enquanto vivos, sobretudo no que respeita a fazê-lo com dissimulação, para o fim de escapulir às rigorosas regras éticas vigentes do lado de lá.

Mas, meu querido, não era sobre isto que eu desejava falar-lhe, mas sobre esta bobagem de buscar a imortalidade através das vias acadêmicas, com fardão e cadeira numerada. Cá entre nós, meu bom poeta, quem lavrou as letras como você tem feito, já venceu a morte mil vezes e não precisa de se submeter a nenhum escrutínio para se eternizar. Quem tem de se preocupar com isto são os políticos bigodudos, ou o coronel Agnaldo “Goebbels” PereiraPersonagem de Jorge Amado em Farda, Fardão e Camisola de Dormir, o coronel Agnaldo Sampaio Pereira, simpatizante do nazifascismo, usou de todos os meios para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. É uma alusão a Paul Josef Goebbels, Ministro da Propaganda do Reich, na Alemanha nazista, entre 1933 e1945, por seu radicalismo político e por seu obstinado propósito de se imortalizar (Goebbels chegou a ser chanceler de seu país, em lugar de Hitler, desde o suicídio deste em 30 de abril de 1945, até o seu próprio, um dia depois). (Nota do autor). Não você. Não o Mário Quintana.

A coisa parece-me bem simples, poeta. Se alguns membros da Academia não conhecem sua obra, é melhor que não lhe deem seus votos. Os que a leram, são, seguramente, seus eleitores incondicionais e sinceros. Não há nada a fazer no Rio de Janeiro, onde esta campanha esdrúxula somente o expõe ao ridículo e, se quer saber o que penso, você é muito novo para ingressar naquela casa, onde não se morre, mas donde ora um ora outro se retira, deixando vaga sua cadeira. E é velho demais para entrar nesta briga.

Volte para sua Porto Alegre e continue sua deslumbrante magia. Ninguém que ame seus versos lindos e sua prosa poética ficará mais feliz se você eventualmente vier a envergar aquela indumentária que, por ser pesada e solene, pode até dificultar a continuidade de sua produção, se não paralisá-la de todo. E foi você quem nos ensinou que as únicas coisas eternas são as nuvens...

Abraços,

L. L.

12 de julho de 1982


Adeus, Poeta

O aluvião provocado pela mídia para cobrir a tragédia brasileira ocorrida no circo da velocidade, obscureceu todos os demais pesares da vida nacional, na semana que passou.

Na quinta feira, dia 5 de maio, revendo a vida e os

versos, Mário Quintana expirava, da forma como desejava, sem que lamentasse por morrer, mas por perder a vida, como diz:

Um dia... Pronto!... Me acabo.

Pois seja o que tem de ser.

Morrer, que me importa ? O diabo

É deixar de viver!

Viveu oitenta e oito anos, existência longa e lúcida, feliz e fecunda. Não morrera antes porque: “não tenho tempo para morrer” e “tenho mais curiosidade pela vida que pela morte.”

Mas, agora, do mesmo modo que os outros, que morrem “porque desaprendem de viver”, ele, esquecendo-se de todas as lições de vida e de sobrevivência, passa a desfrutar do que considerava a libertação total: “poder, afinal, estar deitado de sapatos”.

Era amigo de todos os que o conheciam, era amado por todos que o liam. Alguns deles são monumentos da literatura deste país: Cecília Meireles, Érico Veríssimo, Monteiro Lobato e Manoel Bandeira, que o saudou com um poema cujos primeiros versos são:

Meu Quintana, os teus cantares

Não são, Quintana, cantares.

São, Quintana, Quintanares.

Toda esta amizade e mais a quase meia centena de obras publicadas não foram bastantes para garantir-lhe o direito a um lugar na Academia Brasileira de Letras, com que sonhava. Mas, aos que impediram seu ingresso na casa dos imortais, permitindo, porém o dos marimbondos presidenciais e dos plimplins globais, respondeu com ironia e sutileza:

Estes que atravancam meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho.

A riqueza multifacetária de Quintana permitia encontrar nele, ora uma criança irreverente que justificava a mentira como sendo “uma verdade que se esqueceu de acontecer”, ora o jovem sarcástico para quem “o seguro morreu de guarda-chuva”, ora um velho filósofo, o Poeta-Midas, segundo o qual “tudo o que eu toco se transforma em mim”.

Seus textos em prosa são ricos em lirismo e lê-los proporciona devaneios em áreas recônditas da alma. Suas traduções eram tão elaboradas a ponto de dizer, aos que reclamavam da demora, que tinha que dispor de tanto tempo quanto o autor teve para escrever o original. Daí porque os editores o procuravam para traduzir gigantes, entre os quais Proust, Maughan, Virgínia Wolf, Gide, Huxley e Maupassant.

Celibatário de carteirinha teve, contudo, vários amores e explicava com seu habitual bom humor: “Prefiro ser a esperança de muitas, de que a desilusão de uma só”.

Érico Veríssimo costumava referir-se a Quintana como sendo um anjo disfarçado e que, às vezes, descuidoso ao vestir o casaco, deixava as asas de fora.

Agora, nosso querido anjo assumiu-se, jogando fora seu casaco, definitivamente.

Adeus, poeta!

L. L.

13 de maio de 1994

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Porto do Destino (PDF, 865KB)

Rames Kalluf nasceu na capital paranaense, Curitiba, em 1936. É formado em Direito (mas nunca exerceu a advocacia); em Ciências Econômicas, com pós-graduação em Economia Internacional; e em Licenciatura em Ciências. Começou o Curso de Desenho e Pintura, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, sem concluí-lo.

Lecionou durante trinta anos em escolas do ensino básico e na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de C. Procópio, nas áreas de Ciências Exatas, Biológicas e Humanas. Em 1980, ingressou no Tribunal Regional do Trabalho.

É casado, tem três filhos e um neto. Aprecia música, cinema, leitura e artes plásticas. Atualmente, com 79 anos e aposentado, continua escrevendo contos, crônicas, ensaios e poesias, além de desenhar e pintar diletantemente. Embora escreva há muitos anos, pela primeira vez publica um livro.