Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 28 de dezembro de 2015
A literatura e o Natal: O Natal de Frei Guido
Lenda mística, por Magalhães de Azeredo

O Natal de frei Guido foi publicado em 1900, no livro Balladas e Phantasias, de Magalhães de Azeredo, editado no Rio de Janeiro, por Laemmert & C. Editores, impresso em Roma na Typographia dos Irmãos Centenari.

1.

Isto foi – segundo o in-folio antiquíssimo de onde eu tirei esta história – o tempo de São Francisco de Assis, o doce asceta, o bardo contemplativo e lírico, o fiel amante de natureza, que chamava o lobo seu irmão, e as aves suas irmãs, e suas irmãs também as flores da terra e as estrelas do céu...

Num dos conventos que ele fundara, havia então um jovem monge, de nome frei Guido; era um belo frade, alto e magro, de barbas louras e figura suave; diziam-no sabedor de muitas disciplinas, mas os seus ademanesademane (espanhol ademán, do árabe hispânico addiman ou addamán, do árabe daman, garantia legal) – Gesto feito com as mãos para expressar algo (mais usado no plural). eram modestos, quase tímidos. Muito metido consigo, só falava quando era preciso; às palestras da comunidade preferia o comérciocomércio – convivência; relações sociais ou de amizade. dos livros na sua cela, e as longas meditações taciturnas, em que êxtases divinos o vinham por vezes consolar. – E todos lhe queriam bem, os religiosos por sua piedade e sua brandura, a gente de fora pelas maneiras corteses com que ele tratava pobres e ricos, e pelas muitas obras de caridade que fazia. Mas poucos lhe conheciam o timbre da voz, e quando ele sorria, era de modo vago e distraído, como de pessoa, cujo pensamento anda por longe...

E assim o iam deixando viver tranquilo, sem maiormente perscrutar os segredos da sua índole. Mas o superior do convento, o velho guardião, que, preposto ao governo de tantas almas, devia estudar miudamente cada uma delas, levava não raro horas a fio cismando, cismando, nesse gênio original de frei Guido. Por virtuoso o tinha de certo; mas por que de ordinário era ele tão calado, e se apartava constantemente dos outros? Dir-se-ia triste; e tristurastristura – tristeza. num bom servo de Deus a que propósito vinham? O Santo Patriarca bem queria discípulos que aceitassem com ânimo forte o jugo do Senhor, alegres sempre, embora austeros. Não haveria ali fumos vãos de orgulho? Que é comum derivar o homem negras melancolias da excessiva preocupação de si mesmo. Ou seriam tormentos de concupiscência, revoltas dos sentidos ainda não de todo domados? Pois tentações de tal ordem quando assaltam o justo, soem prostrar-lhe o espírito em grandes desmaios e abatimentos...

Várias provas ensaiara já o cauteloso guardião, e de todas saíra vitoriosa a virtude de frei Guido; mandara-o beijar o chão de bruços, ciliciar-se e açoitar-se em público, lavar os pés a seus irmãos de habito, dormir sobre as lajes do adro em noite de vento e chuva, fazer os serviços mais rudes e materiais da casa; a tudo ele se submetera sem murmurar, simples, dócil, diligente. Mas o severo diretor daquelas consciências mais próximas da perfeição evangélica que às da gente mundana, ainda não se dava por satisfeito; havia da expor o moço frade a uma experiência última e decisiva.

Ora, precisamente aquele dia era véspera do Natal; era a noite feliz, la noche buena, como a denominam os castelhanos. Todos, no convento e nos burgos vizinhos, se aprestavam a celebrar dignamente essa festa popular e universal, uma das poucas que não eram apanágio exclusivo dos senhores e potentados, mas traziam prazer também aos corações humildes. A igreja do mosteiro estava adornada suntuosamente, a despeito de serem pobres os religiosos; pois uma coisa era o exíguo interesse deles, a parca e insossa alimentação, a estamenha grosseira e remendada, outra era a necessidade do culto, para cujo esplendor nada havia demasiado. E para altares, paramentos e alfaias, fidalgos devotos e opulentos lhes ofertavam dons de valia. A multidão enchia o templo; plebeus com as suas vestes grossas de valencinavalencina – [Antigo] pano de lã fina fabricado em Valência. e bifabifa – [Antigo] Pano ou fazenda de duas faces (do latim "bifax")., nobres com seus gibões e capeirotescapeirote (o mesmo que capeirete) [Antigo] – Pequena capa. de veludo, damas envoltas em mantos de seda com forro de branca armelina, todos assistiam igualmente recolhidos aos ofícios divinos;

cânticos sagrados reboavam harmoniosamente de arcaria em arcaria entre espirais azuladas de incenso, e centenas de círios ardiam por todos os lados.

Deo gratias! E terminada a missa, dá o órgão os acordes findes. Todos voltam jovialmente para suas casas; tem pressa de rir e folgar com parentes e amigos diante da ceia, copiosa, no confronto do lar bem aquecido; tanto mais que o inverno vai rude por aí fora, e os caminhos a perder de vista estão brancos de neve sob o luar mortiço. Nos castelos, nos palácios e nas herdades de em torno, começam os saraus de danças e trovas que durarão até amanhecer; e nem nas mais desmanteladas choças dos pastoris serranos falta o odre de vinho ou a marmita a rosnar sobre as brasas crepitantes. Mesmo no convento, os rigores da disciplina se abrandam por algumas horas; os frades também são homens, mercê de Deus, e o bom Jesus nasceu para todos. Tréguas ao jejum e à penitencia! No espaçoso refeitório, de onde a fome sai geralmente mal aplacada, vêm-se hoje iguarias finas, pão branco, púcaros de leite e mel, e no meio o bolo tradicional, a imensa torta dourada e fumegante.

Raro prazer para esses homens sem família e sem liberdade reunirem-se ao menos uma vez por ano em banquete fraternal, e encontrarem ali um pouco do conforto voluntariamente sacrificado. Brilhavam com brilho novo olhos fatigados pelas rubricas miúdas do breviário e do missal, e desfaziam-se pouco a pouco em fontes severas as rugas fundas da meditação.

Até frei Guido, usualmente tão concentrado, parecia ter abandonado com gosto a consultação dos livros e a mudez das suas íntimas cogitações, para tomar também a sua parte na alegria comum. Já muito expansivo e animado, encetara calorosa prática com vários noviços e professos, discutindo pontos sutilíssimos de filosofia e dogma com bastobasto – farto; numeroso. dispêndio de distinguos e ergos, enquanto esperavam o sinal de entrar para o refeitório.

Ora, exatamente quando ia começar a ceia, já rezado o Benedicite e posto cada um no seu lugar, o velho guardião chamou frei Guido, e lhe disse : – Irmão, tomai já o manto e o bordão de viagem, e ide de minha parte ao mosteiro principal de São Bento, saudar o Dom Abade e os seus monges. Vêde se podeis chegar lá antes de nadonado – que já nasceu, nascido; nato. o sol.

Os frades todos estremeceram de espantados; até o decano octogenário, acostumado às surpresas da férrea disciplina, fez um gesto irrefletido de assombro. A ordem do prelado era absurda; tinha mais visos de zombaria que de coisa séria. O mosteiro principal de São Bento distava mais de cem léguas; como havia o pobre frei Guido de chegar lá antes de nado o sol? E demais, que ideia singularíssima, a de mandá-lo jornadear penosamente numa noite como essa – na entre todas santa noite de Natal – pelos caminhos brancos de neve sob o luar mortiço!

Só frei Guido não proferiu palavra, nem se lhe alterou a placidez do semblante. Deixou o seu lugar, foi inclinar-se ante o guardião, para receber-lhe a benção, e, tomando o manto e o bordão de viagem, partiu.

Fim da parte I – PARTE II >.

Carlos Magalhães de Azeredo, jornalista, diplomata, poeta, contista e ensaísta, nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1872, e faleceu em Roma, Itália, em 4 de novembro de 1963. Foi um dos dez intelectuais convidados para integrar o quadro dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Escolheu para patrono Domingos Gonçalves de Magalhães, a quem coube a cadeira nº 9. Foi o mais novo dos fundadores, aos 25 anos de idade, e o último deles a falecer, aos 91. A ABL editou suas Memórias e Memórias de Guerra, com introdução e notas do Acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco.

Leia mais sobre o autor

 


Compartilhe no LinkedIn