Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 28 de dezembro de 2015
A literatura e o Natal: O Natal de Frei Guido (Parte II)

2.

Ei-lo vai, açodadamente. Desertas são as estradas; quem se atreve a afrontar tão danado inverno?

Ei-lo vai; o vento gélido lhe corta as faces: as árvores despidas de folhas refletem tristemente sobre a neve os troncos encarquilhados e tortos.

A princípio, frei Guido vê ainda cá e lá a claridade das casas onde se canta e se baila; rumores festivos saem delas, e perdem-se na solidão da noite. Mais além o monge viandante divisa nos cimos dos montes, as luzinhas escassas das choupanas de zagaiszagal (do árabe az-zagal, pessoa animosa e forte, mancebo) Guardador de gado, ou seja, pastor, pegureiro., e escuta virem de lá notas trêmulas e rústicas de flauta, cascalhar de adufesadufe - Pandeiro quadrado com guizos., trechos de trovas sentidas como suspiros. Os mastins de guarda ladram a sua passagem. Depois, nem isso. Está em pleno campo.

Faz uma hora que caminha. Não encontra alma viva; mas que ruídos estranhos são esses que lhe chegam aos ouvidos? Dir-se-iam murmúrios, cochichos, como de quem fala em segredo, risinhos abafados e malignos...

De súbito, cachinamcachinar - Gargalhar de maneira escarninha.-lhe em torno gargalhadas ásperas, estridentes, como as das bruxas nas orgias do sabbatOs 8 sabbats, celebrados a cada ano pelos bruxos se originam nos antigos rituais que celebravam a passagem do ano de acordo com as estações do ano, épocas de colheita e lactação de animais. Os sabbats, também conhecidos como a "A Roda do Ano", têm sido celebrados sob formas diferentes por quase todas as culturas no mundo. São conhecidos sob vários nomes e aparecem com frequência na mitologia. (Wikipédia). Frei Guido para, sobressaltado. E vozes sinistras entram a dialogar ao pé dele, em tom de sarcasmo e desdém:

– É louco! é louco, o pobre frade! ah! ah!

– Aonde vai ele tão depressa?

– Vai ao grande convento dos Beneditinos, ah! ah!

E as gargalhadas estrugem.

– E diz que quer chegar amanhã, ah! ah!

– Chegará... chegará... no Natal do ano que vem!

E as gargalhadas redobram.

Mas depois do primeiro momento de susto, frei Guido percebe de que se trata; sabe como são frequentes estas histórias de trasgos e duendes, que andam a perturbar no sono ou nas viagens noturnas o sossego dos cristãos; assim se vê a Dama branca, e o Cavaleiro Renegado... o mesmo Demônio aparece às vezes sob a forma de um dragão, como apareceu a São Jorge e a São Maurício, chefe da legião tebana.

Aquilo não era mais que velhacaria de Satanás, que forcejava perversamente por despertar dúvidas no espírito do monge, e ridiculizar a fidelidade com que ele cumpria o voto da santa obediência. A sua alma de crente desprezava tais zombarias do grande Revoltoso e do grande Blasfemo. Ah! diabo malvado e pícaro! Com um Padre Nosso e uma Ave Maria havia de fugir para o inferno, corrido e envergonhado!

E as gargalhadas cessaram, e as vozes emude-ceram.

E frei Guido prosseguiu tranquilo pelos caminhos brancos de neve, a perder de vista, sob o luar mortiço...

3.

Trazem as lufadas do vento músicas de toada esquisita; músicas profanas, de cadência lânguida e quebrada, que excitam a fantasia e subjugam a vontade.

Músicas tais pelas estradas desertas? Será algum bando de árabes ou boêmios? Frei Guido não cabe em si de assombrado.

Trazem as lufadas do vento aromas penetrantes que embriagam; não aromas simples como os das flores no campo ou nos jardins, mas complicados perfumes, intensos e raros, de sapiente composição, como os que se respiram nas salas dos paços e nas alcovas das lindas ricas-donas.

E agora um sem-número de lâmpadas, escarlates, rosas, amarelas, de todas as cores, se agitam em círculos concêntricos, e giram, e volvem, e revolvem, aproximando-se cada vez mais de frei Guido; e aproximando-se cada vez mais vêm as músicas de toada esquisita, e mais fortes, mais capitosas se tornam as essências esparsas pelo ar...

É sonho? é delírio da mente enferma? - pergunta-se o moço frade; e eis o que ele vê ainda para mais pasmar e

benzer-se.

São mulheres, uma legião incalculável de mulheres, as que sacodem essas lâmpadas de todas as cores; e do grupo encantado, que sobre a neve dança em movimentos vertiginosos, vêm as melodias, e os intensos, raros aromas.

E as mulheres são jovens e belas, de vários tipos, de raças diversas; e as comascoma - cabeleira. louras, castanhas, ruivas, negras, esvoaçam em desordem, desnastradasdesnastrar - tirar os nastros a (nastro - tira estreita e longa de tecido, usada como guarnição (ex.: touca debruada com um nastro amarelo). pela brisa; e os olhos pretos, pardos, azuis e verdes, fulgem como estrelas aos pares em noite escura; e os pés ligeiros, como alados, mal tocam o chão, tanto é veloz o compasso da dança; e os vestuários flutuantes de musselina diáfana, coalhados de pedrarias finas, mal encobrem as formas admiráveis. E, enquanto umas bailam, de mãos dadas, cantando rimancesrimance - pequeno canto épico. e vilancicovilancico - [Música] composição musical adaptada à letra de pequenos poemas., outras com arte perfeita tocam diversos instrumentos, harpas e cítaras, saltérios e alaúdes, mandoras e guzlas, sambucas e atabales, pífanos e pandeiros...

Em um momento, sem dar por isso, frei Guido se vê rodeado do todas elas; bailam-lhe em torno com tal rapidez que ele não pode distinguir-lhes as feições. São apenas figuras indecisas, envoltas numa sorte de nevoeiro, que volteam, volteam, e não acabam de voltear. E os sons dos múltiplos instrumentos se alteam mais vibrantes, e os perfumes se condensam em nuvens como de incenso e mirra. E o jovem monge sente-se aturdido e tonto, e vacila como quem vai cair sem consciência.

Cessa, porém, o bailado infernal. E então, dentre aquela multidão de mulheres formosas, vindas da Grécia, da Síria, da Líbia, da Judeia, sai a mais formosa de todas, e acercando-se do frade lhe diz com voz maviosa:

– Vem conosco, vem, Guido. És moço e estás perdendo sandiamentesandiamente - apatetadamente, tolamente, bobamente. a tua mocidade. Eh! Guido, deixa lá conventos e escapulários; deixa isso para mais tarde; que sempre é tempo de raspar o cercilhocercilho - corte arredondado dos cabelos no topo da cabeça, usado por clérigos. O mesmo que coroa, tonsura.. na cabeça. Pois o mundo tem tantos folgares e deleites para dar-te, e tu te sepultas em vida entre os muros frios de um claustro? Anda, vem espairecer um tanto em liberdade; cerra de vez com os seus broches de prata a Teologia e o livro de Horas.

– Mulher - respondeu ele friamente - são moucos meus ouvidos para as tuas propostas insensatas. Vai-te de minha vista, some-te com as tuas companheiras malditas! Eu sei bem o que perdi e o que espero ganhar. Não serás tu quem me ensine o modo como me cumpre viver. Nem me sobra tempo para argumentar debalde contigo, que sou mandado ao mosteiro de São Bento, e devo lá estar amanhã.

– Oh! Guido! pois podes tu crer em tamanha parvoíce? Não percebes que mofaram de ti como de uma criança? O mosteiro de que falas é tão remoto que necessitarias mais de um mês para chegar lá, viajando a pé como viajas. O guardião quis humilhar-te com esse escárnio indigno. Vinga-te dele segundo convém ao pundonor de um homem que se preza! Vem conosco! Serás feliz: tua existência correrá toda em prazeres sem sombra de pensamentos merencórios merencório - melancólico; triste.. E provarás, Guido, os divinos encantamentos do amor... Vem amar, vem a meus braços! Vê como eu sou moça e bela...

E os seus lábios se entreabriam num sorriso mais que angelical; e mais que as pedrarias finas semeadas na sua clâmide clâmide (latim chlamys, -ydis, do grego khlamús, -údos) - [Vestuário] manto dos antigos gregos, seguro ao pescoço por um broche ou sobre o ombro direito. de musselina diáfana, lhe resplandeciam sobre os negros cabelos os grandes olhos igualmente negros.

Frei Guido limitou-se a erguer os seus, rasos de lágrimas, para o céu, erguendo também as magras mãos, em postura suplicante; e sem pronunciar palavra, ia-se afastando da mulher tentadora. Mas esta, rapidamente, agarrou-lhe os pulsos, quis beijar-lhe o rosto; e as outras, como alcateia de lobos famintos sobre indefesa presa, investiram todas contra ele num instante.

Indignado de tal sacrilégio, ao contato desses corpos impuros com o seu corpo inviolável de ungido de Deus, frei Guido debateu-se heroicamente, repeliu de si as hetairashetaira (grego hetaíra, -as) - 1. Cortesã elegante e instruída na antiga Grécia. 2. [Por extensão] Cortesã moderna; mulher que se prostitui. diabólicas; e, invocando o nome de Jesus, e persignando-se muitas vezes, correu espavorido pelo campo fora...

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