Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 30 de março de 2016
História: A matança do Km 65, da ferrovia Curitiba-Paranaguá (I)
Um episódio pouco conhecido da história paranaense

Na Revista de História Online, em seu artigo Reescrevendo a História*, a professora Karina Ribeiro Caldas perguntou a seus leitores se alguém "já teve a impressão de que a História que aprendeu na escola é bem diferente daquela que é contada em livros, filmes, revistas ou programas de televisão?"

A indagação é interessante e, possivelmente, não ocorre com muita frequência a nossos estudantes. Por quê? Provavelmente, porque estão acostumados a considerar como verdades incontestes tudo que vem pronto, divulgado nas grandes mídias, e mais facilmente aceitas ainda quando na forma escrita, principalmente em se tratando de livro e, sobretudo, didático. Mas acontece que a história oficial é contada conforme o desejo dos que estão no poder e, depois de muito tempo, quase ninguém se interessa em pesquisar para descobrir se a "verdade oficial" corresponde à realidade dos acontecimentos. Essa "maquiagem" de fatos históricos aconteceu em muitos países e em muitas épocas, desde o Egito Antigo, sendo o caso da Rússia stalinista talvez o exemplo mais conhecido. E no Brasil não foi diferente. "Quando os vários manuais [...] são comparados ao livro [...] Histórias que não vêm na História, de Francisco de Assis Cintra, encontramos algo, no mínimo, curioso."

"O material escolar impresso no período que corresponde à Primeira República e à Era Vargas certamente reverenciou personagens e efemérides que tiveram sua importância questionada nos anos que se Foto colorizada do Km 65seguiram", destaca Karina. Mas há muitos outros fatos nebulosos ou bizarros, ou mesmo sombrios que são apresentados de maneira deturpada ou apenas omitidos. Como é o acontecido no Paraná em 1831, que ficou conhecido como A matança do Quilômetro 65.

O morto mais famoso desse incidente foi o Barão do Cerro Azul, Ildefonso Pereira Correia. O Barão, eminente empresário e político paranaense, por ocasião da invasão de Curitiba por tropas de maragatos durante a revolução Federalista, assumiu uma posição de negociador com a finalidade de fazer um acordo que impedisse saques e estupros da população desamparada. Algum tempo após as tropas do governo retomarem a cidade, o Barão recebeu uma intimação e foi preso junto com outros cinco cidadãos curitibanos. Na madrugada de 20 de maio de 1894, foram levados da prisão para a estação ferroviária de Curitiba, "para a viagem que não tem volta", como disse o Coronel Moreira César.

A matança do Quilômetro 65

Em 16 de setembro de 1831, o ministro dos estrangeiros da França, conde Horácio Sebastiani, respondendo na Câmara dos Deputados a uma interpelação sobre a Polônia, cuja independência era

* Reescrevendo a História

aparentemente patrocinada pelos franceses, afirmou, com a responsabilidade de seu alto cargo, e sob a sua palavra de honra:

– Senhores, podeis confiar em minha palavra, que é a palavra do governo: reina a paz em Varsóvia. A liberdade impera na Polônia...

E Sebastiani, o grande e honrado ministro, no seu longo discurso publicado no "Moniteur Universel", de 17 de setembro de 1821, pedia aos franceses que confiassem na ação patriótica do governo, que tudo ia muito bem, que era um mar de rosas a situação da Europa, e que a querida e nunca jamais abandonada Polônia estava no regime do progresso e da prosperidade, pois, em sua capital, Varsóvia, reinava a paz.

Paz em Varsóvia! Essa paz afirmada na tribuna da Câmara dos Deputados e nas colunas do jornal oficial por um homem que levava aos representantes do povo a palavra de honra do governo, essa paz cantada em um longo discurso ministerial, era a paz das hecatombes, dos morticínios, da sangueira, a paz dos cadáveres...

Varsóvia estrebuchava nessa ocasião nas férreas mãos dos cossacos. A mocidade polonesa, entrincheirada na Universidade, resistia com heroísmo, e os últimos patriotas combatiam pela liberdade, asfixiada pela Rússia.

Os prelos do mundo proclamaram a sensacional notícia datada de Cracóvia em 1° de setembro:

"O general Krakovieski foi efetivado no cargo do governador militar de Varsóvia, com amplos poderes que decorrem do estado de sítio. Essa medida é apenas preventiva, porque reina a paz em Varsóvia e em toda a Polônia. O povo, tranquilo e feliz, aplaude o governador e apoia a política do Czar".

E essa notícia se proclamava aos quatro ventos da terra quando os últimos patriotas se opunham ao regime do knut e aos grilhões russos; quando Kosiusko, a encarnação viva da alma patriótica polonesa, baqueava, exclamando o "Finis Poloniae"; quando a tirania moscovita saciava na carnação palpitante da pobre e desprotegida vítima a sua ferocidade liberticida; quando se extinguia o último sopro da independência e da liberdade de um povo. E ainda havia um ministro de Estado, que ia ao Parlamento hipotecar a palavra de honra do governo, afirmando a paz e a liberdade de um pobre e desgraçado povo que estrebuchava sob as botas da mais negra tirania que a História tem registrado.

O general Krakovieski, o sanguinário, fuzilava, diariamente, dezenas de poloneses prisioneiros, alvejava com os seus canhões a Universidade, invadia domicílios, desrespeitava a soberania da própria moral, esmagava todos os sentimentos de humanidade, e com as suas botas cossacas encharcadas do sangue da mocidade patriótica de Varsóvia, mandava ao Czar Alexandre I, para que o transmitisse à Europa, a cínica mentira oficial: "Reina a paz em Varsóvia".

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Histórias que não vem na História

Histórias que não vêm na História, de Assis Cintra

é um livro publicado pelo jornalista e escritor Francisco de Assis Cintra, em 1928, pela Cia. Editora Nacional, em que se propunha a divulgar acontecimentos históricos ou relacionados com a história oficial do Brasil, mas que haviam sido apresentados de maneira distorcida ou intencionalmente omitidos para se adequar ao pensamento e interesse do governante da época. Realizou pesquisa minuciosa e acurada ao longo dos anos e publicou os resultados, esporadicamente, nos vários jornais em que colaborou.

Este foi o último livro do autor, que se afastou das Letras, por alguns anos, para se dedicar a misteres mais proveitosos.



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