Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 24 de setembro de 2016
Literatura: Trechos de "Júlio César", de Shakespeare (LP, de 1966)
Com destaque para o extraordinário discurso de Marco Antônio

Em 1966, há exatos cinquenta anos, quando a FAFICOP iniciava suas atividades, era lançado o disco "Trechos de Júlio César de William Shakespeare", com leitura de Carlos Lacerda, pelo selo Elenco.

Capa do disco lançado em 1966

Essa vigorosa tradução da tragédia Julius Caesar fora feita pelo estadista e jornalista Carlos Lacerda em 1955, mas o livro somente foi publicado em 1965. Lacerda era um político e orador brilhante, inteligente, culto e articulado, mas impopular em muitos meios por ser considerado temperamental, instável, e ambicioso demais. Em 1968, teve seus direitos políticos cassados. Desde então, dedicou-se a sua editora, a Nova Fronteira, até falecer, em 1977.

Júlio César, uma das tragédias de Shakespeare, mencionada pela primeira vez em 1599, é a dramatização da conspiração e assassinato do ditador romano e suas consequências. Ela representa a luta pelo poder, a inveja, a intriga, a temeridade, a grandeza e a fatalidade. No horror ao morticínio se ouve o eco das lutas civis na própria Inglaterra que saía das Guerra das Duas Rosas.

Júlio César, tragédia em cinco atos, de Shakespeare

Com essa tragédia, William Shakespeare terminou a primeira fase de sua obra e passou para a segunda, com Hamlet, Macbeth e o Rei Lear. A tragédia tem cinco curtos atos.

Começa com a cidade celebrando o regresso triunfal de César após a derrota dos filhos de Pompeu na Batalha de Munda. Durante o desfile de César, um adivinho adverte César para ter "cuidado com os Idos de março", o que ele ignora. Cássio conspira e tenta convencer Brutus a se juntar à conspiração para matar César. Brutus aceita.

Os dois únicos personagens femininos da peça, Pórcia, mulher de Brutus, e Calpúrnia, mulher de César, mostram a profunda apreensão com os sinais de fatalidade que se acumulam sobre Roma.

A morte de Júlio César (La morte di Giulio Cesare), de Vincenzo Camuccini (1771-1844)

Segue-se o assassinato de César, uma das cenas mais famosas da peça. Casca atinge César na nuca e os outros senadores apunhalam-no, sendo Brutus o último. É quando César profere a famosa frase, que Shakespeare grafou em latim: Et tu, Brute? (Até tu, Brutus?)

Os conspiradores deixam claro que cometeram este ato a favor de Roma. Após a morte de César, Brutus discursa, defendendo suas ações e a multidão fica de seu lado. A seguir, Marco António, com um discurso eloquente, vira a opinião pública contra os assassinos manipulando habilmente as emoções dos cidadãos comuns.

Mais tarde, Brutus ataca Cássio por sujar o nobre ato de regicídio ao aceitar subornos. Os dois reconciliam-se e preparam-se para uma guerra civil contra Marco António e o filho adotivo de César, César Augusto. Nessa noite, o fantasma de César aparece a Brutus com um aviso da derrota.

Na batalha, Cassius e Brutus, sabendo que provavelmente irão ambos morrer, sorriem entre si e seguram as mãos um do outro. Durante o embate, Cássius e seu amigo, Titinius, morrem. Brutus vence esta fase da batalha, mas no dia seguinte é derrotado e comete suicídio com sua própria espada.

A peça termina com uma homenagem a Brutus feita por Marco Antônio.

Chamamos a atenção para uma das cenas mais citadas e estudadas de todas as obras de Shakespeare, que é o discurso de Marco Antônio, na Cena 2 do III Ato.

Observe nesta cena do famoso discurso aos cidadãos de Roma como Brutus fala de maneira simples, sem recursos de oratória, com poucas palavras. Ele tem certeza de que seus motivos para matar César são evidentes, que sua causa é certa, e que não há necessidade de fazer sua defesa. Busca mostrar que agiu sem paixão ao participar da morte de César.

Já Antônio, conhecendo melhor as reações das multidões, usa todos os recursos oratórios de que dispõe. Demonstra sua dor e pede desculpas pela emoção que, entretanto, exibe com inteligência para o populacho. Sabe o que faz e, conscientemente, amansa a multidão ao mesmo tempo que vai mostrando pouco a pouco que César era bom e amava seu povo.

Ainda estamos nos idos de Março e poucas horas transcorreram após o assassinato de César. Até esse momento, os conspiradores haviam conseguido mover a multidão conforme seus desejos, mas nesta cena a maré vira e o espírito de César começa a ter sua vingança.

Raramente a grandeza de uma peça chegou a tais culminâncias como nessa peça de tema político, mas desesperadamente humana de Shakespeare.

Fontes: Wikipedia: Julius Caesar (play);
Carlos Lacerda (contracapa do disco) e
SHAKESPEARE, W; THURBER, S. Julius
Caesar
. Boston: Allyn and Bacon, 1919
.

FICHA TÉCNICA DO DISCO

Título: Trechos de Júlio César de William Shakespeate (1966)
Tradução e leitura de Carlos Lacerda
Gênero: Drama histórico
Duração: 44:55
Gravadora: Elenco ME 28
Face A
1. Cássio apresenta a peça (4:39)
2. César julga os homens (1:28)
3. Casca e os prodígios da noite (1:43)
4. Cássio e Casca conspiram (3:45)
5. Brutus se decide (1:25)
6. O temor de César: fala de Calpúrnia
     César: valentes e covardes (1:51)
7. A carta do professor (Fala de Artemidoro) (0:51)
8. César: desprezo pelos aduladores e intrigantes (1:59)
9. Os conspiradores triunfam: o assassinato (1:19)
10. Marco Antônio fala ao cadáver de César (4:08)
Face B
1. Discurso de Brutus ao povo: as razões da conspiração (3:31)
2. Discurso de Marco Antônio ao povo:
     o testamento de César
(12:01)
3. Aliança de Otávio e Marco Antônio (1:45)
4. Brutus censura Cássio: austeridade e corrupção (2:47)
5. A despedida de Brutus: vitória de César morto (0:37)
6. Elogio de Marco Antônio a Brutus (0:56)

Assista ao discurso de Antônio, na interpretação de Charlton Heston, no filme Julius Caesar, de 1950 (inglês, sem legendas):

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