Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 27 de junho de 2017
História: O Preço de um General
Um homem de princípios morais

Nesta época de tanta corrupção, de tantos homens sem princípios morais, de tanta falta de vergonha e hombridade, trazemos um episódio pouco conhecido da História do Brasil em que se denota a coragem e a honradez de um ilustre brasileiro.

A história oficial é contada conforme o desejo dos que estão no poder e, depois de muito tempo, quase ninguém se interessa em pesquisar para descobrir se a "verdade oficial" corresponde à realidade dos acontecimentos.

A professora Karina Ribeiro Caldas, em seu artigo Reescrevendo a História*, declara: "Quando os vários manuais [...] são comparados ao livro [...] Histórias que não vêm na História, de Francisco de Assis Cintra, encontramos algo, no mínimo, curioso." E é esse "algo curioso" que trazemos para mostrar a grande diferença que há no caráter de nosso personagem e dos políticos, principalmente, os da atualidade.

O Preço dum General

O manifesta republicano de 3 de dezembro de 1870 causou no espírito público a impressão de uma vistosa girândola de fogos de vistaFogo de vista
o mesmo que fogo de artifício.
. Os partidos monárquicos, quer o liberal, quer o conservador, revezavam-se no poder, amparados pelas respectivas máquinas eleitorais, e ora subia um, ora outro, como si a política imperial fora simplesmente uma balança de duas conchas cujo fiel era o poder moderador representado pelo monarca.

Os republicanos conseguiram, com a sua inteligente propaganda, alguns lugares na representação nacional, porém, em 89 [1889], na última eleição feita no Império, sofreram fragorosa derrota. Em S. Paulo, os dois chefes de grande prestígio, Prudente de Moraes e Campos Salles, foram vencidos respectivamente pelo conde do Pinhal e pelo dr. Silveira Cintra. Se não fora a habilidade republicana no aproveitamento da questão militar, que latejava, havia alguns anos, como um tumor maligno no corpo enfezado da Monarquia, os pregadores da República não veriam tão cedo a realização de seu ideal. Só triunfaram revoluções no Brasil quando tiveram a cooperação dos diretores da engrenagem militar, qual se deu no movimento de 15 de novembro de 89, e, pouco depois, na queda de Deodoro, em 23 de novembro de 1891.

Mal. Deodoro da Fonseca (Fonte: Wikipédia)

No primeiro caso, Deodoro era o chefe querido das classes militares. O governo recebera o aviso do levante e entregara sua defesa ao tenente-general Floriano Peixoto e ao general Almeida Barreto. Porém, ambos eram parceiros da bernardaBernarda
revolta, motim.
. Se outro tivesse sido o comandante das tropas monárquicas, um outro que soubesse cumprir seu dever, a então legalidade, que era o Império, não teria sucumbido. No segundo caso, Deodoro, sentindo-se traído por seus dois grandes amigos, Floriano e Custódio, temendo os horrores e os perigos de uma guerra civil, arrependido do golpe de Estado, poucos dias antes desferido contra a Constituição, e com seu mal antigo agravado, provocando-lhe frequentes e terríveis dispneiasDispneia
também chamada de falta de ar, é um sintoma no qual a pessoa tem desconforto para respirar, normalmente com a sensação de respiração incompleta. É um sintoma comum a um grande número de doenças, em especial na área da cardiologia e pneumologia.
, resolveu deixar-se vencer e resignou o mandato de presidente que o povo lhe conferira, passando o comando da nação para o seu substituto legal, que conspirara contra ele.

É fora de dúvida que não foram o povo e o partido republicano os fatores da República. Foi a questão militar.

Seria interessante relembrá-la agora, com as peripécias de seu irrompimento.

No Parlamento Nacional, em 1886, um deputado censurou acremente o coronel Cunha Mattos por escrever nos jornais e, em tese, negou a todos os militares o direito de manifestarem publicamente suas ideias políticas. O coronel Cunha Mattos e mais o tenente-coronel Madureira rebateram pela imprensa a opinião proclamada na Câmara dos Deputados, e disseram que a farda e a espada não lhes sufocavam a dignidade de homens, que eram tão brasileiros como os civis, que tinham o direito de liberdade de pensamento e, finalmente, que isso era uma prerrogativa da classe militar.

Alfredo Chaves, Ministro da Guerra, repreendeu-os com severidade e expediu a todos os corpos do Exército e repartições anexas uma circular em que firmava a doutrina da ilegalidade das manifestações de militares, a quem não assistia o direito de publicar artigos nos jornais.

Essa circular foi o rastilho de pólvora que iria incendiar mais tarde a consciência do Exército, provocando, três anos depois, a explosão de 15 de novembro de 1889.

A questão surgiu, a latejar. De um lado o governo, com sua doutrina áspera e asfixiante; de outro, a consciência militar protestando pelo que chamava o mais

* Reescrevendo a História

sagrado dos direitos do homem livre.

Nessa época, comandava a região militar de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o general Manoel Deodoro da Fonseca. Valente e resoluto, híspidoHíspido
coberto de pelos duros e espessos.
mas bondoso, impulsivo mas querido, Deodoro imediatamente se pôs ao lado dos camaradas contra o governo, E, em Porto Alegre, permitiu que se fizesse uma reunião militar de protesto. Fez mais ainda, pois aprovou o que nela ser resolveu.

Esse prestigioso e valente cabo de guerra comandava as melhores tropas do exército, que eram as do Rio Grande do Sul. Sua coragem e sua impulsividade constituíam seu apanágioApanágio
propriedade, característica ou atributo: a razão é o apanágio do homem.
, já conhecido sobejamente. E por isso era temido e temível.

Presidia o ministério o barão de Cotegipé, que desde logo temeu a interferência de Deodoro na questão militar e tentou afastá-lo do movimento, a príncipio pela intervenção de amigos, depois pelo suborno. Esse estadista não escondia a sua aversão pelos militares e dizia publicamente que venceria os mais graduados com os favores do governo e os outros com os castigos da lei.

Além do posto de comandante das armas das tropas riograndenses, Deodoro ainda era o vice-presidente da província. Cotegipe, em correspondência oficial, apelou para o patriotismo de Deodoro e ordenou-lhe que, conforme os preceitos da lei, e em sua dupla função de comandante das armas e vice-presidente em exercício, processasse e punisse os revoltosos transgressores do Regulamento Militar. Retorquiu o velho cabo de guerra ao poderoso ministro que não competia a ele, na função de comandante das armas e vice-presidente, aplicar as penalidades, porque já não se considerava mais em tais cargos, tendo pelo mesmo correio seguido o pedido de sua exoneração e, outrossim, levava ao conhecimento do governo sua afirmação de solidariedade para com os camaradas que defendiam uma prerrogativa militar. Acrescentou depois de algumas considerações:

"E, senhor ministro, creia V. Exc. que eu não tomei a iniciativa desse ato incriminado de revoltoso e sujeito a penalidades, porque os cargos que exercia de comandante das armas e vice-presidente em exercício me impunham o dever de falar ao governo pessoalmente, como seu agente na província, e não coletivamente em nome dos militares, a cuja classe pertenço, levantando e defendendo os mais justos direitos e proclamando as mais justas queixas."

O barão de Cotegipe, segundo se infere de um artigo da época, levou o caso ao imperador que, alarmado, quis apelar para a amizade e gratidão do seu amigo e protegido.

Isso seria, observou o ministro, uma diminuição de autoridade. Demais, ele traria o general Deodoro para a causa do governo, pois sabia como se "conquistavam" generais.

Nessa crença, lançou mão do suborno. Ofereceu a Deodoro uma cadeira de senador, o titulo de Visconde de Mato Grosso e expediu ordens ao departamento da Guerra para que, a pretexto de ajudas de custo, se lhe desse, ao general, uma certa quantia. E prelibou o gostinho do triunfo, embora julgasse caro o preço pelo qual pretendia comprar a dedicação e as divisas de um general. Era caro, mas quem pagava era o governo, e o governo precisava.

Deodoro da Fonseca, soldado rude mas honesto, sincero e bom, leal e abnegado, não abandonou os seus companheiros de armas pelas humilhantes vantagens de uma traição rendosa que lhe dava até os foros de nobreza e a senatoria vitalícia, além de certa quantia em dinheiro, e respondeu altivamente numa carta publicada nos jornais desse tempo, depois reproduzida em livro:

"Sr. Ministro:

A minha resposta é que as cadeiras do Senado devem ser oferecidas aos políticos e aos que se julgarem aptos para serem legisladores e que quanto ao título nobiliárquico, eu me contentarei com a nobreza dos sentimentos. Quero ser simples soldado, e portanto recuso uma e outra coisa, preferindo antes de tudo ficar ao lado dos meus irmãos de armas."

E, em post scriptumPost scriptum
geralmente abreviado como P.S. (do latim, literalmente "escrito depois"), indicava algo que se julgasse necessário acrescentar a uma carta após o seu encerramento.
, esta chicotada na face do governo corruptor:

"Minha família sou eu e mais minha mulher. Dispenso as ajudas de custo. Basta-me o soldo a que por lei tenho direito."

E não se vendeu. Cuspiu no prato de lentilhas apresentado pelo ministro Cotegipe, que prometera ao Imperador a dedicação dum general, cujas divisas pretendera comprar com posições e honrarias, esquecendo-se de que os bordados de um general brasileiro não se vendem nem se compram, porque, sendo o apanágio de nosso glorioso Exército, traduzem a sacrossanta dignidade da pátria.

Histórias que não vem na História

Histórias que não vêm na História, de Assis Cintra

é um livro publicado pelo jornalista e escritor Francisco de Assis Cintra, em 1928, pela Cia. Editora Nacional, em que se propunha a divulgar acontecimentos históricos ou relacionados com a história oficial do Brasil, mas que haviam sido apresentados de maneira distorcida ou intencionalmente omitidos para se adequar ao pensamento e interesse do governante da época. Realizou pesquisa minuciosa e acurada ao longo dos anos e publicou os resultados, esporadicamente, nos vários jornais em que colaborou.

Este foi o último livro do autor, que se afastou das Letras, por alguns anos, para se dedicar a misteres mais proveitosos.

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