Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 28 de julho de 2017
História: O Duelo de Deodoro e Benjamin
Uma história que não vem na História

Assis Cintra, quando escreveu Histórias que não vem na História*, estava com o sentimento que nós brasileiros estamos sentindo atualmente. Em sua despedida literária (na verdade, por pouco tempo) no jornal "Diário da Noite", de São Paulo, em outubro de 1928, afirmou: "o convívio com os políticos e com os jornalistas assassinam as ilusões dos mais ardorosos sonhadores”, já que “a maioria de todos os que fazem política [...] tem muita propensão para mudar de ideias, de doutrina e de fé, como se tudo isso fosse camisa que se troca todos os dias”. E concluiu: “Os vira-casacas são mais comuns na gente que frequenta o Congresso Nacional [...] do que na que planta batatas e cria porcos".

Atualmente, quando vemos tanto reposicionamento de nossos congressistas, motivado por escusos interesses próprios e não por convicções pessoais, fica bem saber que coisa assemelhada, embora não com os laivos de corrupção atuais, também acontecia nos inícios de nossa República, porém com resultados bem diferentes. Diferentes porque haviam homens de princípios, e de honra, envolvidos e que não se compactuavam levianamente.

O Duelo de Deodoro e Benjamin

Fervia a política republicana no caldeirão escaldante do Governo Provisório. As questiúnculas e intriguinhas de bastidores sucediam-se todos os dias, numa surda guerra de ministros para com ministros. Floriano Peixoto, aparentemente impassível, animava, por detrás das portas, as irritações de todos contra o "generalíssimo" que proclamara a República.

O governador do Rio Grande do Norte, pedira, em telegrama dirigido ao ministro da Instrução, Correios e Telégrafos, que era Benjamim Constant, a nomeação de um protegido de lá para tesoureiro dos Correios de Natal. O ministro, que já empenhara o seu compromisso com outro candidato, cumpriu a sua palavra e nomeou o seu protegido. A política do Rio Grande do Norte gritou e apelou para o generalíssimo. Este reclamou de Benjamim, dizendo-lhe num bilhete que "o candidato não nomeado era o seu candidato" e terminava exigindo do seu ministro que reconsiderasse o seu ato. Benjamim, numa carta, imediatamente respondida ao bilhete, negou-se a voltar atrás, alegando que já assinara a nomeação e não se humilharia para satisfazer a caprichos de políticos.

Deodoro, impulsivo e voluntarioso, irritou-se com a resistência do seu ministro.

Benjamin Constant Botelho de Magalhães (Fonte: Wikipédia)

Benjamim, que fora ardilosamente afastado da pasta da guerra, onde descontentara aos militares da velha guarda, porque somente dava postos de confiança aos moços e fazia promoções rápidas de seus ex-alunos da Escola Militar, não se sentia bem na direção do novo cargo que lhe coubera. O interessante cronista dos casos complicados do Governo Provisório, o Dr. Abranches, numa de suas notas históricas, explica essa transferência que retrata claramente o saco de gatos denominado "Conselho de Ministros" estabelecido em 2 de janeiro de 1890, por um decreto de Deodoro:

"A criação da pasta da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, não correspondera a uma necessidade imperiosa de caráter administrativo, como se procurou então justificar esse ato, mas fora um meio ardiloso de afastar Benjamim Constant da pasta da guerra".

Um outro cronista da República completa as explicações da seguinte forma:

Manuel Deodoro da Fonseca (Fonte: Wikipédia)

"Benjamim Constant, deixando-se influenciar por um grupo de moços que o cercavam, provocara no grosso do exército profundos desgostos pelo ponto de vista em que se colocara na gestão dos negócios militares. Daí queixas constantes e murmurações mais ou menos irritantes no seio das guarnições; daí atritos repetidos com muitos camaradas seus e com o próprio Deodoro, que também tinha as suas ideias e as suas afeições em esfera muito diversa da de Benjamim.

Esse antagonismo de princípios e de inclinações entre os dois fatoresFator
1. Agente; 2. Aquele que faz ou executa uma coisa; 3. Causador; 4. Elemento que concorre para um resultado; 5. [Aritmética] Cada um dos termos da multiplicação.
de 15 de Novembro não achou a sua solução nem ainda nesse termo, e crescendo dia a dia, soprado por intrigas pequeninas e cavilosasCaviloso
Em que há: 1. razão falsa; sofisma; 2. proposta traiçoeira. 3. ironia maliciosa.
, chegou a ponto de provocar uma vez, em uma das reuniões, uma lastimável explosão que quase se traduziu em vias de fato.

A verdade, porém, é que entre os membros civis do governo provisório pareceu o meio mais eficaz de apagar as dissensões entre Deodoro e Benjamim Constant dar a este uma pasta em que as suas aptidões técnicas mais bem se acomodassem, ao mesmo tempo em que se confiasse a secretaria da Guerra a um militar que, como o marechal Floriano, pudesse geri-la com mais êxito, pelo prestígio de que gozava nas fileiras, e pelo contato direto em que sempre vivera com os quartéis. Aceitou Deodoro, pressuroso, essa ideia, e combinou-se que à nova Secretaria se entregassem a instrução pública, os correios e telégrafos. A fim de comunicar gentilmente esta deliberação a Benjamim, que ignorava todo o plano dos seus colegas, concertaram estes que, em uma das reuniões do Gabinete, Cesário Alvim e Glicério se queixassem do acúmulo de serviço nos ministérios a seu cargo, e, proposta a criação da nova pasta, todos, a una voce, declarassem que para dirigi-la estava naturalmente talhado o então ministro da guerra, incontestavelmente um dos mais ilustres engenheiros militares e reputado professor. E assim se fez.

Entretanto Benjamim Constant, na boa fé em que estava, antes mesmo que seus colegas se pronunciassem, lembrou o nome de Lauro Sodré, que fora o seu discípulo predileto, e era nesse tempo o seu secretário.

Deodoro, então, interveio, exclamando:

– Não, senhores! Não concordo com isso. Em vez do discípulo que se escolha logo o mestre.

Todos aplaudiram a ideia, que a Benjamim pareceu um ato espontâneo da velha estima e admiração que lhe votava o seu companheiro de armas, e, dias depois, lavravam-se os dois decretos, nomeando para a nova pasta da Instrução, Correios e Telégrafos, a Benjamim Constant, e para substituto deste, na pasta da guerra, o marechal Floriano Peixoto, que pela primeira vez apareceu no conselho de ministros a 17 de junho de 1890. O nome dele, todavia, figura no meio dos outros desde o dia 10 de maio, mas nessa reunião e nas de 17 e 31 do mesmo mês de maio estava ausente com causa justificada. Esta mudança produziu ótimos efeitos, amortecendo certas paixões perigosas que iam cavando a discórdia nas fileiras do exército, e que bem poderiam arrastar o país ao regime nefasto dos pronunciamentos militares.

Aí está bem claramente narrado o motivo pelo qual Benjamim Constant deixou de ser Ministro da Guerra do Governo Provisório para ocupar a pasta da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, criada especialmente para ele. E foi como dirigente desse Ministério que ele deu motivo ao incidente do qual quase resultou uma cena de sangue em

pleno Itamarati, entre os dois proclamadores da República, por causa da nomeação do tesoureiro dos Correios de Natal, no Rio Grande do Norte.

No salão de despachos do Palácio do Itamarati, no dia 27 de setembro de 1890, estava reunido todo o Ministério, presidido por Deodoro. O chefe do governo envergava a sua vistosa fardamenta de Generalíssimo; Floriano, a de Marechal; Benjamim, a de General; Wandenkolk, a de Vice-Almirante; Campos Sales, Cesário Alvim, Glicério, Bocaiuva e Rui Barbosa, vestiam sobrecasacas. Na ponta da mesa do despacho, tendo ao seu lado o secretário do Governo Provisório, Dr. Fonseca Hermes, Deodoro abriu a sessão:

– Senhores ministros, ao abrir a sessão devo desde logo declarar que certos acontecimentos têm de tal modo ferido o meu amor próprio que não posso assegurar as consequências dessas provocações pessoais...

Benjamim atalhou:

– Nós estamos em conselho de Estado e V. Excia. poderia falar com mais clareza. Queixas de quem e quais as consequências a que alude?

– Queixas do Senhor e vou dizer-lhe porque...

– É um favor de V. Excia. dizê-lo.

– Sim, tenho queixas amargas do Ministro da Instrução e Correios. É preciso que se atendam os pedidos dos governadores. Eu mandei seis ou sete vezes, com insistência mesmo, que o Sr. Benjamim nomeasse uma pessoa para tesoureiro dos Correios de Natal e o Sr. Benjamim nomeou um protegido seu. Isso não está direito, nem é sério...

– V. Excia. tem o direito de me exonerar, mas não o de me ofender.

– Ofensa recebi eu de sua parte com este papelucho malcriado que eu vou ler para os seus colegas ouvirem os seus desaforos.

Em seguida, diante do silêncio geral, Deodoro leu a seguinte carta de Benjamim:

– "Sr. Generalíssimo,

Em resposta ao seu bilhete de hoje, devo dizer-lhe categoricamente que eu não nomearei tesoureiro dos Correios de Natal, no Rio Grande do Norte, o candidato do governador, que também se fez seu candidato, pelo motivo seguinte: já assegurei a nomeação de outro, que já tomou posse do cargo e não me devo humilhar, torcendo a minha palavra dada para satisfazer caprichos de políticos da província. Se V. Excia. deseja essa humilhação, conceda-me antes a minha demissão e mande outro fazer aquilo que pode agradar à política, porém desagrada o meu caráter e o interesse da administração pública. Sem mais, etc.”

Todos os circunstantes empalideceram, prevendo uma tempestade. Benjamim Constant levantou-se e Deodoro também.

O ministro deu dois passos para a frente e falou:

– Sr. Generalíssimo, procure outro Ministro, porque eu não voltarei mais aqui.

– Pois não volte, gritou Deodoro. Mas leve consigo a sua carta malcriada, que eu lhe devolvo. O seu protegido já vai ser demitido por mim e nomeado o candidato do governador do Rio Grande do Norte. Vou telegrafar-lhe que dê posse ao protegido dele. Eu sou o chefe de Governo, e o Sr. um simples secretário.

– V. Excia. não tem razão. Sua queixa tem uma base falsa. Quando V. Excia. indicou o candidato do governador, o outro por mim nomeado já tomara posse do lugar.

– Base falsa tem a sua amizade por mim. O Sr. nunca foi meu amigo.

– V. Excia. derrubou o trono para fazer isso que estamos vendo: regime do absolutismo. Isto não é República.

– Nem é República a intrigalhada que o Sr. fomenta com os seus ridículos positivistas.

– Eu intrigante ? V. Excia. está perdendo a compostura do seu cargo.

Ao ouvir estas palavras Deodoro, com os olhos coruscantesCoruscante
Que brilha muito. O mesmo que fulgurante.
, pulou para a frente de Benjamim, e nervosamente segurando os copos de sua espada, esbravejou:

– Nós somos militares, Sr. Benjamim. As questões de honra entre militares lavam-se com sangue. Puxe pela sua espada, que eu vou puxar pela minha.

Floriano Vieira Peixoto (Fonte: Wikipédia)

E desembainhou violentamente a sua espada. Benjamim virou-se para Floriano e murmurou:

– Ele está louco!...

– Louco é você, seu canalha, gritou Deodoro. E quando ia descarregar um golpe sobre Benjamim, sentiu o seu braço seguro no ar pelas mãos fortes de Campos Sales. O ministro alvejado, que tirara também a sua espada da bainha e se pusera impassivelmente em guarda, foi seguro pelo Marechal Floriano Peixoto, que o levou em seguida para fora da sala, enquanto Campos Sales conduzia Deodoro da Fonseca para um aposento próximo, onde ele teve uma forte crise de dispneiaDispneia
dificuldade de respirar caracterizada por respiração rápida e curta, geralmente associada a doença cardíaca ou pulmonar.
.

Um cronista que narrou a "História da República" assim se refere a este episódio:

Manuel Ferraz de Campos Sales (Fonte: Wikipédia)

"Conquanto a amizade destes dois heróis da República a princípio fosse grandíssima, não faltaram alguns espíritos irrequietos e antagônicos que pouco a pouco semeavam entre eles a discórdia. Nasceram daí pequenos atritos que, repetindo-se quase diariamente, chegaram a produzir a ruptura das relações. Finalmente, na sessão de 27 de setembro de 1890, Deodoro atacou brusca e inopinadamenteInopinadamente
De modo inesperado, repentino, imprevisto ou súbito.
a Benjamim que, replicando-lhe também com violência, quase que dava lugar a uma cena trágica, pois um se colocou em face do outro, na atitude de se baterem em duelo, dentro da mesma sala de despachos do palácio do Itamarati: "Somos militares, bradou Deodoro, puxe pela espada que eu puxarei pela minha". E parecia querer lançar-se sobre Benjamim, que permanecia impassível. Felizmente a intervenção de dois ministros conseguiu que o incidente não tivesse consequências mais desagradáveis, pois Floriano levou Benjamim para fora da sala, enquanto Campos Sales conduzia Deodoro para um aposento próximo, em que o bravo soldado foi atacado de forte acesso cardíaco."

Por aí se vê que em 27 de setembro de 1890 se não fora Campos Sales, Deodoro da Fonseca teria espetado na sua espada, em pleno salão dos despachos do Itamarati, o seu colega de proclamação da República Benjamim Constant, então ministro do Governo Provisório. E nesse caso a História do Brasil teria mais um capítulo trágico com este título: De como o generalíssimo Deodoro espetou na sua espada o seu ministro Benjamim Constant.

Histórias que não vem na História

Histórias que não vêm na História, de Assis Cintra

é um livro publicado pelo jornalista e escritor Francisco de Assis Cintra, em 1928, pela Cia. Editora Nacional, em que se propunha a divulgar acontecimentos históricos ou relacionados com a história oficial do Brasil, mas que haviam sido apresentados de maneira distorcida ou intencionalmente omitidos para se adequar ao pensamento e interesse do governante da época. Realizou pesquisa minuciosa e acurada ao longo dos anos e publicou os resultados, esporadicamente, nos vários jornais em que colaborou.

Este foi o último livro do autor, que se afastou das Letras, por alguns anos, para se dedicar a misteres mais proveitosos.

Visitantes:



Compartilhe no LinkedIn