Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 22 de outubro de 2017
História: O Padre Anchieta, enforcador
Uma história que não vem na História

Assis Cintra, baseado no relato do padre jesuíta Simão de Vasconcelos, cronista fiduciário da Companhia de Jesus, descreve o enforcamento do francês João de Bolés, com a intervenção do padre José de Anchieta, o "apóstolo do Novo Mundo". Este evento foi usado pelo Vaticano contra a canonização do padre no fim do século XIX.

O jesuíta, que nasceu nas espanholas Ilhas Canárias, em 1534, foi educado e ordenado em Portugal e veio para o Brasil em 1553, onde, no ano seguinte, participou da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga, berço da capital paulista. Além de São Paulo, Anchieta esteve também no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e na Bahia.

Após 417 anos, o papa Francisco oficializou, na manhã de 3 de abril de 2014, a canonização do padre José de Anchieta, cerimônia que concluiu o processo iniciado em 1597, ano de sua morte.

José de Anchieta se torna assim o terceiro santo brasileiro: São José de Anchieta.

O Padre Anchieta, enforcador

Levantara-se, havia pouco tempo, o pelouro da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro. Os guerreiros de Mem de Sá levaram de vencida os franceses de Villegaignon e mais os seus aliados tamoios.

Aí, entretanto, se verifica um acontecimento extraordinário: É que as festas comemorativas da fundação da cidade se realizariam com o enforcamento de um prisioneiro francês: o protestante e herege João de Bolés. Este já estivera preso no Rio em 1559 e de lá fugira para S. Vicente, de onde retornara para junto dos tamoios, seus amigos.

Mem de Sá condenara o inimigo sumariamente: que poderia esperar um francês herege de um português católico? Pois o diabo do "estranja" não dera tanto trabalho aos colonizadores lusitanos?

– "Que fosse enforcado", ordenou Mem de Sá.

Aprestou-se a forca. Em torno dela os guerreiros do Governador do Brasil reuniram-se, rodeando-a num círculo fúnebre.

José de Anchieta (Autor desconhecido, acervo da Biblioteca Nacional de Portugal) (Fonte: Wikipédia)

O padre José de Anchieta foi encarregado de acompanhar o condenado. Antes, porém, conseguiu, depois de horas de discussões teológicas com o que ia morrer, converter para a Santa Madre Igreja esse herege francês que levantara os tamoios contra os portugueses.

E ali, no cimo do morro do Castelo, a forca se levantara, sinistramente, à espera da vítima.

Falou Anchieta ao condenado:

– João de Bolés, Deus se amerceou de tua alma, convertendo-te nos teus últimos instantes de vida à verdadeira fé.

Respondeu o francês:

– Padre, eu te agradeço do fundo do coração o me teres revelado a Verdade Divina que é essa que estás ensinando neste continente.

E o condenado subiu os degraus do patíbulo. Cercavam-no Mem de Sá e os seus soldados, ainda aquecidos pelo triunfo contra os franceses e tamoios.

O carrasco fez a laçada. A um sinal do comandante das armas, o corpo de João de Bolés ficou suspenso no ar. Mas o homem não morrera. A sua face congestionada inspirava horror. E o condenado ainda vivia. O laço, apanhando muito por cima o pescoço, não estrangulara. Retiraram então o corpo da laçada da forca e o padre Anchieta, condoído da aflição do francês, repreendeu o carrasco da sua imperícia desumana. Mostrou-lhe como se fazia o laço e como se devia puxá-lo para se evitar ao réu a

barbaridade de aflições horripilantes, qual a de ficar o condenado suspenso no instrumento de suplício sem morrer.

Novamente levantando o corpo do prisioneiro, foi puxada a corda pelo carrasco e João de Bolés estrebuchou nos seus derradeiros instantes de vida. Consumara-se o enforcamento com a intervenção do padre. Este caso, que se relata com os fundamentos da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, foi citado em Roma contra a canonização do padre José de Anchieta, no fim do século passado.

O papa nomeou um cardeal para defender a santidade do apóstolo catequista de Piratininga e um outro para o acusar. Ao primeiro se deu o nome de "advogado de Deus", e ao outro... "advogado do Diabo". E o advogado do Diabo, contra a canonização de Anchieta, citou o episódio trágico da vida do padre, lendo umas páginas da "Crônica da Companhia de Jesus" escrita pelo notável jesuíta Simão de Vasconcelos, que assim discorre:

Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu (Benedito Calixto, 1927 - Acervo do Museu do Ipiranga) (Fonte: Wikipédia)

– "Aquele herege João de Bolés, de quem dissemos no ano de 1559 que fora fugido do Rio a S. Vicente, e dera ali em entender ao Padre Gran, em atalhar seus falsos dogmas: agora dá que fazer aqui ao Padre José: porque depois de ser mandado preso à Bahia, foi trazido (não se diz a causa porque) a este Rio de Janeiro, porventura para que fosse castigado no lugar onde começara a fazer suas heresias, ou porque ali teria cometido outro algum delito grave; como quer que seja: o Governador Mem de Sá mandou que fosse justiçado em mãos de um algoz, e aos olhos dos mesmos inimigos (que ainda restavam). Para ajudá-lo em tão duro transe, foi chamado o Padre José de Anchieta; achou o herege pertinaz em seus errados fundamentos, pediu que se detivesse mais tempo a execução da justiça e entre aquelas tréguas da vida falou o novo sacerdote ao réu com grande espírito, e eficácia de razões, que converteu seu empedernido coração, e veio a reconciliar com a Santa Igreja aquela ovelha perdida e quase tragada do lobo infernal, com aplauso do Céu, e dos homens. Porém, aconteceu aqui um caso digno de ser sabido: porque o algoz, quando foi à execução do castigo, como era pouco destro no ofício, detinha o penitente no tormento demasiadamente, com agonia e impaciência conhecida. José, que via este erro tão grande, e receava que por impaciência se perdesse a alma de um homem, por natural colérico, e tão pouco havia convertido; entrou em zelo, repreendeu o algoz, e instruiu-o de como havia de fazer seu ofício, com a brevidade desejada: ato de fina caridade. Sabia muito bem José a pena das leis eclesiásticas, que suspendem seu ofício a todo aquele que sendo sacerdote acelera a execução da morte, em qualquer ocasião que seja, ainda que pia; porém preponderava com ele mais a caridade que devia ao próximo e respondeu aos que lhe perguntaram a causa de tal resolução desta maneira: 'Porque o dano de minha suspensão não é ofensa de Deus, e tem remédio com a absolvição da Igreja: porém o dano daquela alma, se ali se perdera por impaciência, era pecaminoso, e não podia remediar-se; e pela salvação de uma alma vivera eu suspenso toda a minha vida.' Oh! resolução de engenhosa caridade! O Governador Mem de Sá depois deste castigo partiu para a Bahia, contente dos sucessos que Deus lhe dera, deixando com o governo daquelas partes a seu sobrinho Salvador Corrêa de Sá."

(Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, ano de 1567, parágrafo 116, pg. 63, livro III, vol. II, de autoria do padre Simão de Vasconcellos, jesuíta)

E assim o "advogado do Diabo" venceu o "advogado de Deus", pois o padre José de Anchieta, embora mereça o título de santo, não foi "santificado" somente porque... ajudou a enforcar o francês João de Bolés, conforme o relato do padre jesuíta Simão de Vasconcelos, ilustre cronista da Companhia de Jesus.

Histórias que não vem na História

Histórias que não vêm na História, de Assis Cintra

é um livro publicado pelo jornalista e escritor Francisco de Assis Cintra, em 1928, pela Cia. Editora Nacional, em que se propunha a divulgar acontecimentos históricos ou relacionados com a história oficial do Brasil, mas que haviam sido apresentados de maneira distorcida ou intencionalmente omitidos para se adequar ao pensamento e interesse do governante da época. Realizou pesquisa minuciosa e acurada ao longo dos anos e publicou os resultados, esporadicamente, nos vários jornais em que colaborou.

Este foi o último livro do autor, que se afastou das Letras, por alguns anos, para se dedicar a misteres mais proveitosos.

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