Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 25 de maio de 2018
História: O sacrilégio do Convento da Lapa
Uma história que não vem na História

Assis Cintra descreve o evento acontecido em 19 de fevereiro de 1822. A cidade de Salvador. BA, foi palco de um dos muitos distúrbios que precederam a Guerra pela Independência. Os soldados portugueses, embrutecidos pela luta, tentam invadir o Convento da Lapa. Obstando-os, e temendo pela sevícia de suas internas, posta-se a abadessa Joana Angélica de Jesus, pagando o gesto com a vida, tornando-se, assim, a primeira mártir da Independência do Brasil.

O sacrilégio do Convento da Lapa

O mês de fevereiro de 1822 acendeu no patriotismo brasileiro, com bravura espartana, o sentimento de liberdade. A cidade de S. Salvador da Bahia, dominada pelo Brigadeiro Inácio Luiz Madeira de Melo, apoiado no mar por uma esquadrilha lusitana e em terra por um exército de cerca de 3.000 homens, estava em estado de sítio, sob o regime da lei marcial.

No dia 17 de fevereiro os patriotas tirotearam com as tropas portuguesas e no dia 19, de madrugada, as paredes da cidade surgiram aos olhos do povo com a proclamação impressa do comandante da praça de guerra, aconselhando calma e prometendo garantias. Dizia o Brigadeiro Madeira, nessa proclamação:

"Habitantes da Bahia! A desordem desde anteontem, está desgraçadamente entre nós e os esforços e sacrifícios não foram suficientes para embaraçar um tão grande mal: vós tendes patenteado a vossa moderação e eu vo-lo agradeço em nome da Nação e do Rei. Eu devo assegurar-vos que vão tomar-se todas as medidas para se estabelecer o sossego público. Estes malvados vos intimidam com a ideia de um saque nas casas dos cidadãos; porém eu vos certifico da parte da Pátria e do Rei, que a casa do cidadão será um lugar inviolável. Conservai-vos em vossas casas: não ateeis mais os males da pátria, não vos intrometais nos negócios públicos, e vós gozareis de vossa segurança e propriedade. Quartel-General da Bahia, 19 de fevereiro de 1822. - Inácio Luiz Madeira de Melo, general das armas".

Ao lado dessa fala do brigadeiro português, outras proclamações, impressas em vermelho, foram afixadas nas paredes das ruas baianas. Diziam:

"Patriotas da Bahia! Pegai em vossos arcabuzes e em vossas espadas e vinde para as ruas combater contra a tirania! Fora com o despotismo! Viva a Liberdade!"

Convento da Lapa, Salvador, BA. Foto de Rafael Castro y Ordoñez (1834-1865) (Fonte: Biblioteca Digital Luso-Brasileira)

Foi às 6 e meia da manhã de 19, quando o sol já iluminava o casario da cidade, que se iniciaram os combates para as bandas da rua João Pereira. A luta generalizou-se por toda a cidade, a fuzilaria pipocava, a metralha estrondeava, o sangue corria, e os ódios desembestados impunham o terror nos lares e nas vias públicas.

O 2º batalhão, em esquadrão de cavalaria e um corpo de marinheiros portugueses, desembarcados para reforçarem as tropas do general Madeira, regressavam da escaramuça sangrenta da qual resultara o aniquilamento do 1º batalhão de patriotas revoltados, quando, ao passarem pelo largo da Lapa, ouviram o vozerio piedoso das freiras do convento, guiadas pelo capelão, que em preces angustiadas, diante do altar, pediam misericórdia a Deus.

E uma voz se levantou na multidão da soldadesca e

de marinheiros:

– "As freiras."

Um sargento malvado, ainda na embriaguez da chacina pouco antes verificada, bradou à soldadesca sedenta de violências:

– "Ao convento!"

Então aqueles homens que regressavam de um combate encarniçado, se arremessaram como feras sedentas de sangue contra a grande porta de jacarandá lavrado do vetusto convento da Lapa.

Ao estrondear dos coices de espingardas na velha porta da igreja conventual, acudiram o capelão padre Daniel da Silva Lisboa e a abadessa Joana Angélica. E lá em cima, junto ao altar, trêmulas e chorosas, as freirinhas rezavam. O capelão Daniel deu volta à chave, o gonzo antigo rangeu nos eixos, e portas abertas, a soldadesca estacou diante daquelas duas respeitáveis figuras.

A abadessa empunhava um grande crucifixo de prata e o capelão apresentava o Santíssimo.

O padre Daniel, velho de 70 anos de idade, com uma larga cabeleira branca agitada pelo vento, olhos luzentes e faiscantes de apóstolo ou profeta, imprecou a turba sanguinária que se estacara diante da sua majestade sacerdotal e do símbolo sacrossanto que ele apresentava na destra:

– "Sacrílegos, que fazeis?! Parai, em nome de Deus!"

Mal acabou de falar e já um soldado que se achava na frente de todos, com uma brutal coronhada de espingarda, partia a cabeça do ministro de Deus.

O velho capelão baqueou ensanguentado e de pé, ao lado do corpo do padre, se agitou a figura delicada e venerável da abadessa Joana Angélica, que alçou a cruz, exclamando:

– "Oh! Deus do céu! Não permiti que eu veja estes miseráveis violarem a clausura sagrada de vossas esposas e de vossas servas. Salvai-nos, Senhor, e castigue os profanadores!"

O mesmo soldado que, com uma coronhada abatera o velho capelão, enristou a baioneta e com ela levantou para o ar o corpo da freira. O sangue da mártir, que fora assim levantada na ponta da baioneta, caiu sobre a cabeça do réprobo, e, molhado nesse sangue, se desprendeu a destra da freira assassinada o crucifixo de prata. Dois corpos baquearam ao mesmo tempo no portal do convento da Lapa: o da abadessa e o do soldado.

O martírio da freira Joana Angélica de Jesus, em 1821 - Óleo de religiosa de Itu, séc. XIX (Fonte: Wikipédia)

Deus ouvira a imprecação da freira, e quando o assassino lhe cravara nos seios a baioneta e a levantara para o alto como um troféu sanguinolento, o crucifixo de prata ensanguentado se desprendera das mãos da abadessa Joana Angélica e caíra na nuca do sacrílego, partindo-lhe o osso occipital e dando-lhe assim morte imediata, fulminante.

Enquanto isso, as freirinhas da lapa, como se fora um bando de rolas assustadas pela aproximação de milhares de abutres, fugiram pelos fundos do altar, ganharam o quintal do convento, e escapuliram pelas casas vizinhas.

Isto consta das crônicas antigas e autênticas da Bahia...

Histórias que não vem na História

Histórias que não vêm na História, de Assis Cintra

é um livro publicado pelo jornalista e escritor Francisco de Assis Cintra, em 1928, pela Cia. Editora Nacional, em que se propunha a divulgar acontecimentos históricos ou relacionados com a história oficial do Brasil, mas que haviam sido apresentados de maneira distorcida ou intencionalmente omitidos para se adequar ao pensamento e interesse do governante da época. Realizou pesquisa minuciosa e acurada ao longo dos anos e publicou os resultados, esporadicamente, nos vários jornais em que colaborou.

Este foi o último livro do autor, que se afastou das Letras, por alguns anos, para se dedicar a misteres mais proveitosos.

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