Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 27 de junho de 2020
Memória: Concurso de contos na FAFICOP - "Samba de Dor"
Apelo envolvente de uma pequena grande obra

Nos primeiros anos da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Cornélio Procópio (FAFICOP), havia intensa programação de cursos de extensão e de atividades culturais em seu campus, localizado na Rua Portugal, área central da cidade.

Numa dessas ocasiões, possivelmente entre 1969 e 1973, houve a promoção, por meio do Departamento de Letras, de um concurso literário de contos. Mesmo com o pequeno número de inscritos, algumas obras se destacaram pela qualidade, o que chegou mesmo a dificultar a seleção pelo corpo de jurados, que era formado por professores do Departamento.

Uma delas, "Samba de Dor", um conto escrito em 1968 pelo então acadêmico Olivar Coneglian que, posteriormente, veio a ser professor da instituição, constituiu-se numa pequena obra-prima.

Desenvolvido num estilo despojado, semelhante ao de um bom samba-raiz, enseja ao leitor sentir até a batucada de fundo, num apelo envolvente que eleva o sentimento de melancolia, latente na dor muda, profunda, do personagem principal, Zelão.

Samba de Dor, de Olivar Coneglian

Zelão Preto, sentado no chão, olhando as estrelas da cidade grande, pensava. Zelão só pensava quando estava triste. Nem cachaça bebia.. Baforava o cigarrão de palha feito no sossego de sua solidão grande E ficava sentado triste olhando, desde a tardezinha, as estrelas da cidade que ficava lá embaixo , descendo o morro. Uma estrêla aqui, outra lá no longe. Depois, na ante-escuridão, tudo acendia de repente. Aí então o céu da cidade tinha mais estrelas que o céu do céu, e mais alegres e mais bonitas. O céu só tinha estrelas brancas e amarelas. A cidade tinha estrelas coloridas que ficavam piscando dentro da gente depois que o sono vinha.

Zelão Preto estava triste... Bastante tempo já fazia que Zelão estava triste. Desde que a nega Juçara morrera. Aquele lotação louco batera nela com força e o corpo da mulata, que dançava o samba do morro, ficou molhando o asfalto negro, todo mundo vendo, todo mundo sem fazer nada, olhando e vendo, enquanto Juçara morria. Zelão levou nos braços o corpo que tinha dançado com ele o samba, nos bailes do morro. Juçara era a mais bonita porta-bandeira que batia as sandálias no carnaval da cidade.

O peito negro de Zelão inchava de orgulho vendo o povo da cidade bater palmas pra Juçara. Não importava que eles olhassem pro corpo bonito da mulata, pois a mulata era dele, só dele. Era o dono daquele corpo, daquela alma, e dos olho, uns olhos grandes que sorriam sempre que Zelão olhava pra eles.

Agora Zelão olhava com tristeza para a cidade que lhe roubara a mulher. A alma de Zelão estava doendo lá dentro do peito, como se uma mão forte a estivesse esmagando devagarinho.

Mudo e só, Zelão, não fumando nem bebendo, sofrendo só. E mascando entre os dentes aquela dor esquisita que magoava tanto, que fazia chorar sem doer.

Chorar? Não, que Zelão era homem. Não chorou quando sua mãe morreu. Não chorou nem mesmo quando

O autor, Olivar Coneglian (1970)

ficou sabendo que Chico do Violão não era nenhum herói e que fora preso porque invadira a casa duns ricaços. Os homens eram ricos, mas o que era deles, era deles e pronto. Chico não precisava roubar, pois quem rouba não é herói e não deve se esconder no morro.

Agora, Zelão não ia chorar por uma mulher. Mas essa mulher era Juçara! E Zelão quase chorou.

O brilho da cidade, crescendo dentro da noite, eram os olhos da mulata olhando pra ele.

O agogô começou a soar baixinho. Depois a frigideira. O tamborim. O pandeiro. O reco-reco.

O samba começou quieto. Silencioso. Depois foi subindo. Foi crescendo, engordando. Enchendo o morro. Entrando dentro da gente, devagarinho, num batuque gostoso e molente. E começou o gingado do corpo. Pum-pá-pum-pá-pum-pum-pá. E começou o passo do sambista, nascido no samba.

Em pouco, todo o morro era samba.

Só Zelão não sambava.

Mudo e só, não fumando, não bebendo, sofrendo só. E vendo, dentro da alma, Juçara mexendo o corpo e batendo as sandálias no batuque do samba.

Depois o samba parou. O silêncio entrou dentro de tudo e calou o morro. Zelão não sentiu o silêncio nem se mexeu.

Depois o silêncio foi embora e o samba voltou, mais quente, mais rápido, mais cadenciado. A voz de Zé Pedro no céu de estrelas:

Todo morro entendeu,
quando Zelão chorou.
Ninguém riu, ninguém falou
e era carnaval.

Depois o samba parou. Zelão ficou com os ouvidos no morro e os olhos na cidade brilhante, brilhante, como um anúncio de jóias nas revistas que ele via, às vezes.

Zé Pedro saiu do rancho onde batucava o ensaio e foi ver Zelão:

– Preto, a turma qué vê você no samba. Se tu num vai dá o apito, a turma falou que ninguém dança.

– Zé, o morro não tem porta-bandeira. O morro dessa vez não vai desfilar.

– Preto, tu qué vê a mulata Juçara chorando no céu, nesse carnaval, só porque seu morro num vai sambá? Preto, Juçara qué dançá no céu. Tu tem que dá o apito. Vamo, a turma tá esperando.

Zelão Preto olhou para os olhos da cidade que estavam olhando para ele como os olhos da mulata Juçara, passou as costas da mão nos olhos, secou duas lágrimas esquisitas.

E foi sambar.  

Ilustração de Carybé (Hector Julio Páride Bernabó, argentino, naturalizado brasileiro)

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