Campus de Cornélio Procópio
Cornélio Procópio, 21 de agosto de 2021
História: No tempo do trem, de Ourinhos a Cornélio (II)
A SPP e as cidades da linha

De Cambará a Andirá (1929-1930)

A colonização do norte paranaense, com capital inglês, começou realmente em outubro de 1925, quando o governo do Paraná vendeu aos ingleses 840 mil hectares de terras, ou seja, 13.165 km2 (metade do País de Gales), na região entre os rios Tibagi e Ivaí, por 6.776 contos de réis, por intermédio da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Esta empresa desenvolveu seus trabalhos tendo como objetivos explicitos a compra de terras pertencentes ao governo do Paraná e o desenvolvimento do sistema ferroviário para valorizá-las.

A SPP havia atingido Cambará somente em 1925, uma cidade, pequena, que já existia antes da ferrovia, com cerca de 3.200 habitantes à época. Seu início se deu em 1904, quando várias famílias se instalaram no local, dando origem ao povoado de Alambari, que foi elevado a categoria de vila, em março de 1923, com a denominação de Cambará (nome de árvore ali existente em grande quantidade).

A linha ficou parada em Cambará por quatro anos, até que em resposta ao pedido de financiamento feito pela SPP, a CTNP propôs a aquisição da maioria de suas ações, porque tinha enorme interesse na concessão que a ferrovia possuía para levar seus trilhos até Guaíra, no rio Paraná, junção das fronteiras do Brasil e Paraguai. Em 30 de junho de 1928, a ferrovia passou para mãos inglesas e Ourinhos tornou-se sua sede.

O engenheiro da SPP, Wallace Hepburn Morton, em depoimento feito em 1986, declarou que Londres enviou instruções para que a ferrovia fosse estendida até Guaíra, na divisa com o estado do Mato Grosso, passando pelas terras da CTNP. O encarregado da fase inicial do prolongamento, de Cambará até Jataí, foi o engenheiro William Reid, que elaborou estudo topográfico e orçamentário para o assentamento dos trilhos. A empreitada foi confiada à empresa canadense MacDonald Gibbs & Co. Ltd., que instalou o primeiro acampamento em Cambará, em 1928. No princípio de 1929, a ferrovia inaugurou essa fase da expansão, rumo a Jatahy e à futura Londrina.

Após meticulosa vistoria para conhecer as condições do trecho em operação, uma das primeiras medidas foi providenciar a modernização da via permanente e do material rodante. Os trilhos existentes foram substituídos por outros mais resistentes, que teriam condições de aguentar o peso de locomotivas e material rodante mais modernos. As duas locomotivas existentes tinham sido fabricadas em 1880 e os vagões de carga eram muito velhos e de capacidade reduzida.

Teve início então abertura das picadas na preparação do leito, à base de picaretas, assentamento dos trilhos e construção das estações em determinadas quilometragens.

A MacDonald Gibbs teve sucesso na superação das dificuldades impostas pela mata virgem e pelos grandes rios. Foram anos de sacrifício, de tarefas hercúleas, enfrentando calor,

Engenheiro Wallace Hepburn Morton Escavadeira a vapor Ramsomes-Rapier-Marion, fabricada na Inglaterra, da empresa canadense MacDonald Gibbs & Co. Ltd. em meio à mata virgem
Locogrupo e a equipe de preparação do leito e construção da linha que avançava para o oeste Durante a construção da estação Meirelles, visita de Benedito Monteiro, contabilista da SPP, e de Carlos Eduardo Devienne, Chefe de Movimento, respectivamente, o 5º e 6º, a partir da esquerda.
A estação Meirelles, nos áureos tempos da "Maria Fumaça" (Foto: Francisco de Almeida Neves) Da estação Meirelles restou apenas a plataforma, rodeada pelo mato e pela saudade dos que a conheceram.
Concluindo os preparativos para inauguração da estação de Ingá (a moderna Andirá); é de se notar a pujante mata ao lado (Foto: autor desconhecido) Comboio festivo que inaugurou a estação de Ingá (atual Andirá), em 11 de abril de 1930 (Foto: Correio Paulistano, 15/04/1930)
Corte da fita inaugural do trecho Cambará-Ingá pelo Ten.-Cel. Euclydes do Valle, representando o Governador do Paraná, em 11 de abril de 1930 (Foto: Correio Paulistano, 15/04/1930) A estação de Ingá, por volta de 1940 (Foto: Francisco de Almeida Lopes)
A estação de Andirá, ainda ostentando Ingá na parede lateral, em 2010 (Foto: D. Gentili / www.estacoesferroviarias.com.br) A estação de Andirá, belamente recuperada pela Prefeitura, em 2017 (Foto: Alejandro Tumanoff / www.alepolvorines.com.ar / www.estacoesferroviarias.com.br)

quebras do equipamento, doenças e rotatividade da mão de obra.

Em 1930, a SPP, sob gestão inglesa, chegara a alguns quilômetros após Cambará, tendo sido construída a estação denominada Meirelles – que seria inaugurada na mesma ocasião que a de Ingá –, possivelmente para o escoamento do café produzido nas fazendas do vizinho município de Santo Antônio da Platina. Essa estação não deu origem a núcleo habitacional.

Finalmente a linha chega a Ingá (nome de fruta silvestre abundante na região), a atual e pujante Andirá, e a estação, construída nas terras de Bráulio Barbosa Ferraz, é inaugurada em 11 de abril desse ano.

Fontes:
Cornélio Procópio: das origens e da emancipação do município, Átila Silveira Brasil, 2ª ed., UENP, 2014
Meu Pai e a Ferrovia, José Carlos Neves Lopes, UENP, 2014
Memórias Ourinhenses, blog de José Carlos Neves Lopes
IBGE, Brasil, Paraná, Cambará
Estações Ferroviárias do Brasil

Artigos desta série

No tempo do trem, de Ourinhos a Cornélio (I) - De Ourinhos a Cambará
No tempo do trem, de Ourinhos a Cornélio (II) - De Cambará a Andirá
No tempo do trem, de Ourinhos a Cornélio (III) - Andirá, Bandeirantes e Santa Mariana
No tempo do trem, de Ourinhos a Cornélio (IV) - Cornélio Procópio

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